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Este país desconcerta-me. O que é que se passa? Em vez de se tratarem das questões essenciais, fazer uma verdadeira avaliação política da governação, anda-se de "telenovela" em "telenovela"?

Já o disse aqui atrás, em 12 de Setembro, no post "O jornalismo caseiro e o comentário político doméstico": a comunicação social não vai ao essencial. E não é só ficar pela superficialidade. É errar o alvo. Falhar a notícia.

Guiarem-se pelas vendas ou pelas audiências terá um preço, get it? Onde é que uma alminha curiosa e verdadeiramente interessada em política a sério se irá informar? À internet, à blogosfera, a lugares livres e que analisam e aprofundam a realidade social, económica, científica e cultural.

 

Mas já agora eu digo-vos o que é a notícia:

 

1. O estado económico e social a que chegámos:

Analisar e explicar porque: estamos tão mal preparados para enfrentar a crise financeira global; porque temos um fraco apoio da UE; porque não se prepararam medidas eficazes e consequentes, mas apenas intervenções avulsas e sem critério ou lógica identificáveis; explicar porque se reduziu o défice orçamental à custa do cidadão comum, mas não se reduziram as despesas do Estado nem os vencimentos dos gestores das empresas públicas; porque se continuou a derrapar nos custos; porque temos um Banco de Portugal que não serve para nada a não ser "encobrir" as irregularidades dos bancos e validar os números do governo; negócios megalómanos como o TGV; porque nos foram vender à China por baixos salários; porque nunca coincidem os números do desemprego; porque não há um estudo fiável sobre a evolução do desemprego neste anos mais recentes nem os fluxos migratórios mais recentes; e ainda uma lista das empresas que fecharam antes da crise financeira global, etc.

 

Breve intervalo, porque a seguir vem a Educação e a Escola Pública, já desmantelada por este governo.

 

publicado às 13:09

O reinado da Política Pueril

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.01.09

A população do Reino ("populaça", para as "novas elites"), já não esperava da governação pensamento estratégico ou medidas inteligentes. Esperava tão somente que não estragassem muito ou deixassem estragar nem roubassem muito ou deixassem roubar...

Mas o que a População do Reino desconhecia, era o verdadeiro nível de decadência a que se tinha realmente chegado e que só quem tinha acesso aos bastidores poderia vislumbrar.

 

Nesse dia o Feiticeiro do Reino, que tinha direito a Espelho Mágico e tudo, sentou-se por breves momentos a consultar o equivalente às actuais sondagens, antes de iniciar mais uma Reunião Extraordinária do Conselho de Aprendizes. Pegou, pois, no Espelho:

Espelho meu, espelho meu... Quem no Reino tem mais Poder do que eu?

O Espelho engoliu em seco e teve de pensar vertiginosamente antes de responder, pois não queria acabar em estilhaços contra uma parede.

Sois Vós, Senhor! O mais elegante do Reino!

Ouve lá, estás surdo? Eu não disse o mais elegante, disse o mais poderoso!

Sem dúvida, Senhor, sem dúvida...

Deixa-te de rodeios!

 

Como já deu para ver, estes rudimentos das actuais sondagens não tinham a vida nada facilitada! Ah, esta Política Pueril baseada na popularidade... Poucas coisas mudam sob este céu estrelado...

Voltemos a esse momento em que o Espelho é salvo pelo Gong! do início da Reunião.

O Feiticeiro coloca a capa mais vistosa e dirige-se para o Salão. Lá encontra todos os Aprendizes... bem, todos não...

Então o das Artes, Velharias e outras Coisas do Passado?

Tornou-se transparente... balbuciou o Gnomo da Sociedade Anónima, Ocupações & Reformas.

Atirem-lhe pó de talco para cima, para sabermos onde está...

O Homem Transparente espirrou com o pó no nariz e refilou:

Bastava-me colocar as lunetas e saberiam logo onde estou.

Basta!, o Feiticeiro estava sem paciência. Temos assuntos importantes a tratar! Como vão as coisas pelo Reino? Quero as últimas novidades!

O Homem da Conversata de Lata levantou-se com alguma dificuldade. Tinha-se esquecido de olear as juntas e rangia por todos os lados.

Gostaria de dizer que as coisas vão bem, mas...

Mas...?, rugiu o Feiticeiro.

Como iria introduzir os dois assuntos é que o Homem da Conversata não sabia...

Mas antes de sequer abrir a boca, o Feiticeiro percebeu o que já suspeitara com os rodeios do Espelho. O que é que eles querem para me manter no poder?

Bem, eles andaram há tempos na pedincha com as uniões de facto para pessoas do mesmo sexo... arriscou o Porteiro com a barba por fazer.

Seja!, dá-lhes tudo! O casamento pelo civil! Tudo!

O casamento civil...? O Porteiro nem queria acreditar. Então há uns meses não havia nada para ninguém!?

E a adopção?

Tudo, tudo!, disse gulosamente o Feiticeiro, já alheio ao problema. Assim terão com que se entreter, em vez de pensarem em política. Pensar em política é perigoso...

O Homem da Conversata de Lata emudecera. E agora...?

Vá! Que mais, que mais é que eles querem? O Feiticeiro esfregou as mãos. Como era fácil contentar estes papalvos!

A Regionalização também não ia nada mal... balbuciou com as juntas a ranger.

Seja! A Regionalização!

O Homem Transparente espirrou: Como!? Mas isso era o fim do sistema! De todas as feitiçarias! Da nossa razão de ser! Vivemos do centralismo do poder! 

E quem lhe disse que é para cumprir?, berrou o Feiticeiro, já sem paciência nenhuma. É só para os entreter... Foi assim com todas as minhas promessas, não foi? Que culpa tenho eu que sejam uns simplórios? Dêem-lhes a Regionalização, os debates, a discussão pública, tudo!, que eu depois lhes dou a volta!

O Homem da Conversata de Lata não sabia mesmo como introduzir uma das novidades do Reino. Foi o Homem das Contas de Somar que o salvou:

Parece que o Reino Maior não aceitou as suas continhas, Senhor!

Não aceitou o quê?, vociferou o Feiticeiro a chispar dos olhos.

Aquelas continhas que o Senhor fez... não aceitam...

Querem estragar-me o negócio? Querem pôr-me fora de jogo? A mim? Ao seu melhor Aluno? Ao do Quadro de Honra?

Todos se calaram. A coisa estava preta. Sim, aquela do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo iria entreter os indígenas por uns tempos. E aquela da Regionalização a seguir, era de mestre de feitiçarias... já daria para os distrair das continhas que não tinham sido aceites pelo Reino Maior.

O Feiticeiro lá se acalmou ao ponto de conseguir fixar o papiro que o Homem das Contas de Somar lhe passou para as mãos. Até o Reino Maior o queria entalar!? Mas com esses podia ele bem! Agora o que o preocupava era aquela gentinha que o podia apear... Fixou o Homem da Conversata de Lata: Diz-me lá o que tens aí entalado nessas juntas ferrugentas...

A Profetisa voltou a falar... Resolveu largar tudo de uma vez só: E disse que Vós sois o Coveiro do Reino.

Ela disse isso? Ela atreveu-se a dizer isso?

É certo que agora com o casamento das pessoas do mesmo sexo... e a Regionalização... já ninguém se lembra do que ela disse... arriscou o Homem da Conversata a chiar.

Coveiro? Coveiro?

Em breve seriam os indígenas a chamá-lo coveiro, a erguer-lhe o bracinho de porcelana... Já conseguia ouvi-los e à sua vozinha atrevida: Coveiro... Coveiro...

Tem de pedir desculpa! Exijo um pedido de desculpas!

Todos aguardaram em silêncio. Afinal fora o Feiticeiro a inaugurar a Conversata insultuosa e logo na Assembleia Geral. Aprendam comigo, dissera-lhes sempre. Vejam como consigo calá-los... E enxovalhava toda a gente, à esquerda e à direita, sem dó nem piedade.

Exijo! Exijo!, vociferava ainda, mas os Aprendizes já se tinham alheado. Começaram a preparar-se para uma nova fase das suas vidas: actualizar as Agendas dos Contactos Úteis, pelo sim pelo não... 

 

publicado às 12:49

Este drama em Gaza já ultrapassou todos os limites. Já o coloco no plano do genocídio premeditado.

Clara Ferreira Alves retratou Gaza como um "grande campo de concentração", no "Expresso da Meia Noite" da Sic Notícias.

Aliás, a primeira discussão verdadeiramente séria sobre o tema que vi na Sic Notícias. De resto, foi entrevistas a estudiosos das tácticas militares (aquela gente tem consciência do significado do que está a dizer?) e a justificar a invasão de Israel (se o alibi histórico já não colava, agora já irá jogar ao contrário: porque quem pratica genocídio sobre outros não pode de modo algum vir colocar-se no plano de "povo perseguido").

 

Ainda segundo a Clara Ferreira Alves, haverá em Israel quem não concorde com esta filosofia bélica do poder israelita: pessoas inteligentes, cultas, moderadas, que gostariam de ver esta cultura mudar. 

Espero sinceramente que essa influência moderada comece a emergir naquela sociedade, porque estamos muito perto de um ponto de não retorno. Como curar as feridas desta tragédia? Como passar, depois desta invasão criminosa, para o plano das negociações?

Também há quem refira o efeito de boomerang. Pelo menos, Israel já conseguiu animar e mobilizar os movimentos mais radicais.

 

Os EUA, depois de uma invasão no Iraque que teve o efeito perverso, além da guerra e da destruição, de reavivar o terrorismo, irão ficar numa posição muito fragilizada, a meu ver, nas negociações que espero irão ter de se iniciar em breve. Que será por pressão de países com alguma influência (já vimos que a UE, em termos de política externa, é uma miragem), não vejo outra hipótese.

 

Como definir um país que não respeita o Direito Internacional nem a universalidade dos direitos humanos? E que pratica genocídio?

Certamente já não o podemos colocar no plano dos países civilizados.

 

Todos sabemos como são cozinhadas as relações internacionais, as traficâncias de interesses e as negociatas mais estranhas. A gloriosa democracia americana é uma expert no assunto.

Mas há limites que, ultrapassados, dificilmente poderão passar em branco: esta iniciativa tem de ser penalizada. Nem que seja por uma simples declaração de violação do Direito Internacional e dos direitos humanos e da definição exacta desta iniciativa bélica: um genocídio premeditado. A não ser que já se estejam a lançar para a fase seguinte: o extermínio de um povo.

 

 

publicado às 10:06

Those naughty boys... pensei eu para os meus botões. Um sorriso começou a formar-se nos neurónios já cansados e a espalhar-se por todas as células ainda acordadas. Deixei-me invadir por um renovado entusiasmo, ainda indefinido mas ainda assim energético. O bem comum, pois...


Nas minhas viagens blogosféricas, o que mais me fascina é a inteligência, o nosso melhor recurso. Lá está, viva, como um filão por descobrir. A seguir, a criatividade. Céus!, aquilo é uma lufada de ar fresco. Depois, a irreverência, a ironia, a comunicação.
Há muita emoção também. E por vezes algum sarcasmo. Mas não creio que seja propriamente destrutivo.


A blogosfera é, a meu ver, uma comunidade diversa e criativa, de:
- inteligência, que observa, analisa, critica, propõe;
- sensibilidade artística, que cria, descasca, revolve, provoca;
- ironia, que vira ao contrário, relativiza, exagera, desarma;
- comunicação, que troca informação, acolhe, apoia, inspira;
- espaço de expressão individual, muito próximo do diário ou da criação literária, alguma com imensa qualidade. 

 

Quando comecei a interagir, digamos assim, com outros bloggers, descobri três atitudes mais frequentes:
- uma amabilidade e gosto pelo debate;
- uma tolerância e muita paciência;
- uma indiferença distante e polida.


Não parti com expectativas, por isso me surpreendeu o enorme poder de encaixe (tolerância) da maioria dos bloggers com quem interagi.
No calor desta tragédia, que ainda se mantém na Faixa de Gaza, foi a mim que me saltou a tampa! Acabei por me deixar dominar pela emoção, ao tentar defender valores que são sagrados para mim: o direito à vida, a segurança e bem-estar das crianças, o seu direito a um futuro, a uma vida com dignidade. E, evidentemente, a seguir às crianças, os jovens, as mães, os mais velhos, e os restantes adultos. (1) Estes direitos são universais e não são negociáveis, são o que melhor nos define como humanos. Sem estes direitos básicos não há viabilidade para a nossa espécie.


Claro que parto do princípio que todos defendemos os direitos humanos universais! Mas há leituras mais distanciadas do que outras. A minha aqui não se distanciou, ficou colada ao sofrimento que se devia ter evitado. E podia-se ter evitado, se a inteligência fosse melhor utilizada e existisse uma consciência mais abrangente.


Mas há outro valor para mim, que já não coloco no plano do sagrado, mas que ainda assim é fundamental em qualquer democracia digna desse nome: o bem comum.
Desconfio que este valor é submetido à ironia condescendente (e aqui de novo um sorriso me anima os dias: those naughty boys...) e por momentos sinto-me como aquela personagem da Barbara Streisand: uma activista inflamada, obsessiva, chata, moralista. Estão a ver o filme?, entra o Robert Redford na sua melhor fase, descontraído e poético...?


O bem comum, dito assim, é um conceito aparentemente moralista, de activistas possessos. Mas não é essa a minha visão, nem podia ser.
Sou avessa a moralismos, a evangelizações e a pregações. (E um dia ainda espero desenvolver aqui este tema, este grande equívoco: a maior religião actual no país é este laicismo militante que quer destruir precisamente os valores que sempre nos orientaram e que têm raízes cristãs).
Sou absolutamente alérgica a tudo o que soe a violência, seja de que espécie for. Não é por aí. Também não é por um pacifismo de cordeirinhos para o sacrifício. (2)


Sou pela inteligência e criatividade, por uma consciência mais abrangente. Claro que isto implica uma autonomia de pensamento e de acção que ainda não temos, mas que podemos defender, a começar agora.


A minha visão de bem comum não é o que nos é imposto (socialismo) ou proposto (democracia actual) de cima, tantas vezes arbitrariamente, sem critério, sem respeito pelo cidadão comum.


O bem comum é um valor em si mesmo porque é aceite naturalmente por todos os cidadãos envolvidos. O seu valor é intrínseco: é aceite sem qualquer hesitação, sem qualquer dúvida, por todos os cidadãos envolvidos.


Um exemplo que me caiu do céu vem-me da “Quinta do Sargaçal”, a minha primeira descoberta deste Ano Novo:

 

http://www.sargacal.com/2009/01/08/estudante-atrapalha-a-atribuicao-do-ultimo-presente-de-bush-as-petroliferas-e-carvoeiras/

 

 

Penso que não nos ficam quaisquer dúvidas de que se trata de uma iniciativa de um cidadão comum que, num dado momento decide, de forma consciente e responsável (embora irreverente e ousada), tomar uma iniciativa pelo bem comum. Esperou que outros avançassem, mas o tempo era escasso (estes suits da Administração Bush não brincam em serviço!) e resolveu avançar. Chama-se a esta iniciativa Desobediência Cívica. Tem os seus custos, as suas consequências, mas também tem a melhor compensação de todas. A primeira, a união de esforços por uma causa comum, a contribuição de todos os que aderiram, quiseram (ou puderam contribuir): esta é a melhor expressão de uma democracia de qualidade.


Podem chamar-me lírica, já estou habituada, em casa era sonhadora, ingénua, vive na lua... Consigo viver com isso. O que me custa é que às vezes sou um bocado chata (bem, às vezes sou muito chata), e vejo-me no papel incómodo da Barbara Streisand naquele filme com o Robert Redford... (Aliás, o Robert Redford também entra neste filme da defesa do bem comum, e é entrevistado por uma jornalista conceituada nestas defesas dos direitos humanos e outros valores do bem comum).

 

 

(1) Esta foi mais ou menos a ordem de salvamento dos sobreviventes do Titanic. Como seria agora? I wonder...

 

(2) Este dilema também é dificílimo se decifrar: viram a reportagem de Louis Theroux na África do Sul?

 

 

publicado às 12:30

No seu futuro longínquo John Silva, o nosso luso-descendente, observa-nos com alguma curiosidade. Todas estas emoções e sentimentos, discussões, indignações, revoltas, tudo aquilo que nos põe efervescentes e que, no seu espaço-tempo, refere na mensagem, seria considerado perda de energias.

Embora exista uma diversidade de opiniões e avaliações, ninguém se lembraria de as defender acaloradamente, como tenho observado nestas viagens com o Simulador.

Tentei projectar-me nesse tempo em que as pessoas se comportam com a contenção e a placidez de robôs inteligentes. Mas talvez a comparação não seja a correcta: a atitude geral a que John Silva se refere não é a ausência de emoções ou de sentimentos associados a uma ideia ou a um acontecimento. A atitude a que se refere é a de um respeito por cada uma das opiniões.

É verdade que as opiniões não são todas tratadas da mesma forma, há prioridades. Mas estas prioridades são aceites tacitamente por todos.

O grupo define à partida as condições mais favoráveis para todas as pessoas, sem excepção. E embora existam hierarquias, por funções e graus de responsabilidade, directamente baseadas no perfil e na preparação de cada um, todos respeitam õs princípios previamente definidos.

 

Questionei-me interiormente sobre o grau de liberdade numa sociedade assim organizada. John Silva pareceu adivinhar esta minha dúvida porque na mensagem seguinte incluiu o seguinte:

Não há organizações perfeitas. Mas para manter as condições ideais do grande grupo, e de cada um em particular, tivemos a sensatez de respeitar o espaço individual: cada um é livre de pensar e de organizar a sua vida segundo as suas próprias prioridades, desde que respeite os princípios e valores do grande grupo.

 

Sorri interiormente ao fazer o paralelismo quase imediato com um livro magnífico de Alain de Botton, O Consolo da Filosofia, e a parte que dedica a Epicuro. Mas porque é que me ocorrera Epicuro e não outro dos filósofos? Talvez pelo valor que dá à amizade.

É que esta forma de organização que John Silva descreve é a que, a meu ver, se aproxima mais da amizade: implica afinidades e lealdade, mas uma enorme dose de liberdade individual. E implica maturidade e sentido de responsabilidade, como é evidente.

 

Epicuro, pois. Que, por ironia da história humana, tão atribulada, violenta, selvagem, mas também poética, complexa e diversa, se irá projectar assim, num modelo muito próximo do seu, num futuro longínquo de naves em órbita num qualquer lugar inóspito.

Epicuro e a poeira que se levanta sob os passos inseguros de um navegador espacial em explorações futuras... só a ideia me dá vontade de sorrir.

Será que a sua visão nos poderá consolar, também a nós, que assistimos às maiores atrocidades, com a complacência e cumplicidade dos maiorais do sistema?

 

Vou fazer aqui um breve intervalo para procurar o livro em questão...

 

(Intervalo, que não foi breve...)

 

Finalmente descobri porque me ocorreu Epicuro pelo olhos de Alain de Botton:

 

"... Epicuro e os seus amigos fizeram uma segunda inovação radical." Bem, a primeira tem a ver com a vida em comunidade, um pequeno de amigos. "No intuito de não terem de trabalhar para pessoas que não gostassem e de não terem de responder a fantasias potencialmente humilhantes, deixaram de trabalhar no mundo comercial de Atenas ('Temos que nos libertar da prisão dos negócios e política de todos os dias '), e começaram aquilo que poderia ser descrito como uma comuna, aceitando um modo mais simples de vida em troca de independência. Poderiam ter menos dinheiro mas nunca mais teriam que obedecer às ordens de superiores odiosos." (pág. 75)

 

Foi aqui que eu vi um paralelismo entre este pequeno grupo de amigos e a organização social que John Silva descreve, nesse futuro longínquo, pequenos grupos que se constituíram por afinidades, por um projecto comum, mas já sem a necessidade de escapar ao domínio ou controle de uma sociedade injusta.

 

É que a ideia que está a ser lançada actualmente, ao cidadão comum, é precisamente a ideia errada:

Demos-te cabo do teu pequeno negócio porque não obedecia às exigências comunitárias; desmantelámos a tua actividade de feirante porque não pagavas impostos; desertificámos ainda mais as tuas aldeias do interior e tiveste de te deslocar para a periferia da grande cidade; deixámos fechar empresas onde trabalhavas, sufocadas com impostos e à espera do pagamento da dívida estatal...

Agora, vê a nossa generosidade: damos-te um subsídio; damos-te trabalho temporário; damos-te trabalho precário... Mas agora, que pagas os impostos e dependes do sistema, aceita de cara alegre os salários baixinhos que mais vale um salário baixinho do que nenhum...

 

Voltando a Epicuro pelos olhos de Alain de Botton:

"Foi assim que compraram um pequeno pomar perto de casa, a pouca distância do Pórtico Dípilo, e cultivaram uma série de vegetais para a cozinha, provavelmente bliton (couves), krommion (cebolas) e kinara (antepassado das modernas alcachofras, das quais a parte de baixo era comestível mas não a casca exterior). A sua dieta não era luxuosa nem abundante, mas era saborosa e nutritiva. Conforme Epicuro explicava ao seu amigo Meneceu, '[o homem sábio] escolhe não a grande quantidade de alimentos mas os mais agradáveis'."

 

Quando o President se referiu, no discurso de Ano Novo, ao "mundo rural" e ao "pequeno comércio", foi assim que o interpretei: a importância de um equilíbrio interior e litoral e a viabilidade de duas actividades gravemente ameaçadas.

Mas ali os franceses, que são mais evoluídos e que têm as aldeias todas num brinquinho, com jardins tratados e tudo limpo e verdejante, vivem em pequenas quintas, perto das cidades, e quando regressam ainda vão dar uma mãozinha com o tractor. Cá isso é mal visto, pelos vistos.

Os ingleses não abandonaram o seu campo, também se orgulham das suas aldeias. E o próprio Carlos de Inglaterra tem procurado trabalhar com os agricultores para conciliar tradições com modernidade, protegendo cultivos e cultura.

Além disso, não é o turismo rural um dos conceitos com mais futuro? E o turismo cultural? Não há pessoas a pagar para ajudar na vindima? Qualquer dia será na colheita da azeitona ou na apanha da maçã...

E quanto ao "pequeno comércio" que a ASAE fez o favor de fechar, foi um desastre para algumas aldeias do interior que ficaram ainda mais desertas, algumas lembrando cenários de filmes mas já sem os actores... a não ser no Verão, quando alguns ainda vêm para passar férias.

Não teria sido melhor uma análise abrangente do que uma visão de farejar pequenas falhas (mercearias, por exemplo), e fazer a colecta dos impostos (perseguição a uma economia paralela de subsistência, como nas feiras, por exemplo)?

 

(Novo intervalo)

 

 

publicado às 10:54

Foi na TIME on-line que descobri esta voz dissonante: Avrum Burg, sionista de uma das Famílias Fundadoras do Estado de Israel. O pai foi um dos deputados do primeiro Knesset e o próprio Burg viria a ser deputado e membro do gabinete israelita (entrevista de Tony Karon).

Estou a seguir o texto na íntegra da página (ainda tentei traduzir, porque não aprecio ler excertos de textos em inglês ou francês nos blogues portugueses, mas quero manter-me absolutamente fiel ao original):

http://www.time.com/time/world/article/0,8599,1869325,00.html

 

His position at the heart of the Israeli establishnent makes all the more remarkable his critic of the Jewish State, which he claims has lost his sense of moral purpose. In his book 'The Holocaust is Over: We Must Rise from its Ashes' (Palgrave/McMillan), he argues that an obsession with an exaggerated sense of threats to Jewish survival by Israel and its most fervent backers actually impedes the realization of Judaism's higher goals.

 

(...) I, like many others, believe that a day will come very soon when we will live in peace with our neighbors, and then, for the first time in our history, the vast majority of the Jewish people will be living without an immediate threat to their lives.  Peaceful Israel and a secure Diaspora, all of us living the democratic hemisphere. And then the question facing our generation will be, can the Jewish people survive without an external enemy? Give me war, give pogrom, give me disaster, and I know what to do; give me peace and tranquility, and I'm lost. The Holocaust was a hellish horror, but we often use it as an excuse to avoid looking around seeing how, existentially, 60 years later, in a miraculous way, we are living in a much better situation.

 

(...) Even in the Holocaust, the lesson is 'Never Again'. But this doesn't mean just never again can genocide be allowed to happen to the Jews, but never again can genocide be allowed to happen to any human being. So, the Holocaust is not just mine; it belongs to all of humanity.

 

(...) In Israel you have many tanks, but no many think thanks. One of the reasons I left the Israeli politics was my growing feeling that Israel became a very efficient kingdom, but with no prophecy. Where is it going?

 

Sobre Gaza: Gaza is a nightmare, and it's a stain in my conscience. And I'm very troubled by the attitude of Israelis against Israeli Arabs. It's a shame. It's a black hole in my democracy. But I say sometimes that I'm too close to the reality; I don't have the perspective; I don't have the bigger picture.

 

A nova geração: Um dos seus filhos esteve como voluntário na América Latina, onde se sentiu sempre bem acolhido pelas populações das pequenas aldeias. Entretanto em Israel, descreveu ao pai uma experiência vivida nos 30 dias que prestou de serviço militar no West Bank: When I look around me 350 degrees, nobody loves me. Settlers, Kahanes, rabbis, mulahs, Hamas, Palestinians, you name it - they all hate me.

 

publicado às 13:52

Ainda há vozes assim inflamadas contra a indiferença e o conformismo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.01.09

Quando o país já estiver todinho rendido à linguagem do poder, na total decadência moral e ética, é bom saber que ainda há vozes assim inflamadas contra a indiferença e o conformismo...

Quando o país estiver todinho rendido ao Estado Novo reeditado (the same old cavalry), é bom saber que ainda há vozes a lembrar-lhe outros tempos de ideiais, de valores, de almas vivas e rebeldes.

 

O cidadão comum poderá então lembrar-se que houve um tempo em que não temia adversidades e em que certamente não toleraria ser sobrecarregado com mais impostos e exigências (DGCI e ASAE) para depois os "falinhas mansas" lhe virem explicar porque tiveram de "salvar banqueiros".

Sim, o cidadão comum poderá então lembrar-se que houve uma outra bandeira, a do coração e que, surpreendentemente, não é a "desta República" (que produziu o Estado Novo e este triste estado actual), mas a de outros sonhos...

 

 

http://tempoquepassa.blogspot.com/2009/01/scrates-lopes-e-barroso-podero-achar.html

 

Só se ouviram vozes assim num tempo em que o sonho ainda vivia. São vozes antigas, ancestrais, poéticas, de séculos atrás e que, chegadas ao final do séc. XIX, resolveram saltar por cima do séc. XX, cinzento e bafiento, directamente para o séc. XXI!

Será mais uma expressão da inspiração divina? Ou da sintonia com a linguagem dos afectos num país rendido à linguagem do poder?

 

http://tempoquepassa.blogspot.com/2009/01/do-regresso-da-guerra-e-da-fome-ao.html

 

 

publicado às 20:53

Como justificar o injustificável? Com a linguagem do poder.

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.01.09

A linguagem do poder é igual em todo o lado. E é tão criativa!

Vou exemplificar apenas com alguns termos, mas procurarei ir enriquecendo este Dicionário, já de si tão rico de definições criativas.

Vejamos:

 

mortes = baixas; danos colaterais;

invasão militar = invasão defensiva (esta é inédita!);

destruição = neutralização; operação cirúrgica;

crimes de guerra = iniciativa em legítima defesa;

 

Este Dicionário está em aberto, porque neste momento não me ocorrem todas as definições utilizadas pela linguagem do poder.

 

E inédita também a invenção mais perversa de todas:

 

Aviso às populações para fugir = para o mar?

 

 

Bem podem agora dar voz na televisão (ah, a opinião pública...) às justificações do injustificável. Bem podem vir os representantes locais ou internacionais de uma voz oficial ou para-oficial de Israel, com ares civilizados! Apenas revelam o seu lado rude, duro, indiferente, vazio, bélico, gélido. A linguagem do poder é a linguagem da morte e da destruição, em todo o lado. Com a fatiota mais civilizada ou a formação mais doutorada, salta à vista desarmada pela sua ausência de empatia.

 

Empatia é a simples prova da nossa humanidade. Reagir ao sofrimento de outros, ao desamparo. Porque já os experimentámos e aceitámos como próprios da existência, o nosso próprio sofrimento e o nosso próprio desamparo.

 

O tecnocrata (que Arno Gruen designa como psicopata), não tem a capacidade de os aceitar. Para ele, isso é uma fragilidade simplesmente inaceitável. Só entende a força, o sucesso, o domínio, o controle. Por isso se agarra ao poder. E por isso é o poder que o protege e justifica. Pode, no entanto, simular emoções e sentimentos, como um exímio actor, mas sem os sentir. (1)

Logo, para alguém atento ao seu discurso, percebe a incongruência, não cola. É o que sinto ao ouvir os representantes israelitas actualmente no poder, não cola. É o que sinto ao ouvir as ilustres personagens a que têm dado voz para virem justificar na televisão o injustificável, não cola. Entendem o que eu quero dizer? (2)

 

Arno Gruen explica tudo isto muito bem. E infelizmente nunca os seus livros estiveram tão actuais:

"A Loucura da Normalidade" e "A Traição do Eu - ...", ambos da Assírio e Alvim.

Mas também a ler o seu "Falsos Deuses" da Paz Editora.

 

Mas aqui não é só Israel e o Hamas. É também a União Europeia, a América...

E a ONU que acordou tão tarde...

Esta é a lei da selva! Não há cá Direitos Humanos ou o Direito Internacional. O que é isso? Dá-se uma volta por cima...

 

Mesmo que artilhado como um "civilizado", se alguém age como um selvagem, é um selvagem, seja terrorista, seja tecnocrata.

 

 

 

(1) Podem simular na perfeiçao emoções e sentimentos que não sentem (ver: Arno Gruen).

 

(2) Bem, no meu caso, já são muitos aninhos a desmontar discursos e narrativas.

 

 

 

publicado às 14:42

E também no tom certo, o discurso de Ano Novo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.01.09

Sim, o discurso de Ano Novo do President no tom certo: mostrar em que situação nos encontramos, respirar fundo, não entrar em pânico, procurar manter o sangue frio e a confiança nas nossas capacidades, unir esforços, mobilizar vontades, etc.  

Os destinatários habituais do President são os "portugueses". Já no ano passado eram os "portugueses". Traduzindo: o cidadão comum.

 

Ora bem, embora o tom do discurso esteja correcto, os destinatários é que continuam a não ser os correctos. Eu explico:

 

O cidadão comum não tem já colaborado de forma suficiente no "esforço de recuperação do país" através do pagamento de impostos que não param de subir até ao limite do incomportável num país tão pobre?

O cidadão comum não viu já muitas das empresas fechar, não ficou de vigília ao portão, sem saber o dia de amanhã?

O cidadão comum, sobretudo o que vive no interior esquecido, não teve de ir para a rua fazer mais vigílias nocturnas para não lhe fecharem os serviços de saúde?

O cidadão comum não teve de fechar as portas das suas pequenas mercearias e outros estabelecimentos, depois de inspecções da ASAE e das suas exigências?

O cidadão comum não se viu de repente dependente de subsídios e de complementos solidários, quando desejaria simplesmente continuar a dedicar-se ao que sabe fazer melhor, ao seu pequeno negócio?

O cidadão comum não tem sido explorado, para não dizer escravizado, em trabalho temporário e outras situações verdadeiramente inadmissíveis numa democracia de qualidade?

O cidadão comum não teve de ir protestar para  a rua, em caminhadas de protesto, por valores como uma educação de qualidade (aliás o tema central do melhor discurso do President, do 5 de Outubro de 2007), mas agora completamente esquecidos?

 

Pois é: o cidadão comum não apenas teve de suportar sozinho o "esforço de recuperação" do país há muito falido, como ainda vai ter de salvar os destroços que nos apresentam após 3 anos de "governação". 

Sem se querer vitimizar, o cidadão comum devia lembrar ao President que agora é a sua vez e do so called governo de "fazer um esforço de recuperação" do país.

No caso do President, que ainda por cima é economista, através de conselhos adequados, atempados e de mais "avisos à navegação".

No caso do so called governo: não estragar mais do que já estragou, evitar mais despesas ruinosas que irão hipotecar as gerações futuras, ouvir os conselhos e avisos à navegação do President, de forma a manter o barco à tona até Outubro.

O cidadão comum agradece que não continuem a sobrecarregá-lo com impostos, exigências, etc., quando o Estado se mantém irresponsavelmente perdulário e os grandes negócios protegidos.

O cidadão comum agradece um pouco de consideração e já agora, reconhecimento pelo seu papel na manutenção da barcaça à tona. Se não fosse a sua colaboração, já teríamos naufragado.

 

Sim, no tom certo, mas com os destinatários errados.

Quanto àquela indirecta de "deixar-se de querelas": se o President tivesse sido mais firme nas suas posições até aqui (mesmo com os seus poderes limitados), não teríamos chegado a este triste estado (violência, corrupção),  a esta situação tão precária (empresas falidas), a esta desconfiança generalizada (na justiça, na concorrência do mercado, na supervisão bancária, etc.), you name it!

E já para não referir o tema do seu melhor discurso até hoje: a educação, um dos ideais da República! Não se colocou o President ao lado do so called governo e da sua ministra? Isso quer dizer que esqueceu completamente os valores da escola pública? O papel dos professores? A educação de exigência e rigor que habilita os cidadãos a uma participação activa nos destinos do seu país? A cidadania não era um dos tais ideiais da República?

 

A cada um as suas responsabilidades. Em vez de indirectas ao so called governo, seria bom começar a colocar-lhes questões muito directamente, em nome do cidadão comum. A "cooperação estratégica" já nos saiu caríssima: alguém quer fazer as continhas, se faz favor?

E se a ideia de uma "união de esforços" é o bloco central, é melhor pensar de novo. O país está no estado em que está por causa dessa "união de esforços". O caminho é outro, completamente diferente.

Que o President passe a assumir em pleno o seu papel de Chefe de Estado e que os partidos assumam igualmente o seu papel na construção da democracia de qualidade que todos desejamos.

 

A lealdade, palavra que o President utilizou para caracterizar as instituições e os seus poderes, deveria aplicar-se, em primeiríssimo lugar, ao cidadão comum que representa, ao mesmo que tem aguentado a barcaça. É essa a lealdade primeira: com o cidadão comum que jurou representar e proteger. 

Assim, ao ver o so called governo seguir percursos errados, políticas ruinosas, que prejudicam o dito cidadão comum, teria dito alguma coisa, não é?

A lealdade primeira é com os princípios e valores democráticos e republicanos. Assim sendo, já o teríamos ouvido protestar no tempo adequado. 

Acordou um pouco tarde, é certo, mas  que ainda seja a tempo de se evitarem mais erros.  É essa a minha expectativa.

 

publicado às 10:12


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